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Revisitando a história

EM MEMÓRIA DE UM ANTENPASSADO, O VISCONDE DE SOUTO,

REVISITANDO A HISTÓRIA FINANCEIRA DO RJ

Jornal Commercio de Lisboa nº 339, de 23 de fevereiro de 1880 deu início a publicação da primeira de seis partes do artigo escrito por José de Bessa e Meneses, em Lisboa, em 21 de fevereiro de 1880.

Antônio José Alves Souto nasceu em 28 de março de 1813, na cidade do Porto, em modesta casa da rua Nova de S. João. “Teve humilde berço para embalar-se, a creança destinada a ser um dia o maior colosso comercial que jamais produziu Portugal !”
Aos 16 anos embarcou para a capital do Brasil, onde chegou a 27 de janeiro de 1830, trazendo no bolso uma carta de recomendação da respeitabilíssima casa de Barros Lima, do Porto, que lhe “dava direito a casa, cama, farta mesa e dinheiro para as primeiras necessidades, sem obrigação nem promessa de futuro pagamento.”
“Como em tão curtos anos tão larga mudança fazem os homens !”
Sua vida profissional teve início com o emprego de caixeiro na casa dos correctores-banqueiros Ferreira & Cohn, “uma das mais importantes do Rio de Janeiro, frequentada pelos homens mais influentes do commercio, que sympathicamente attrahidos se dirigiam de preferencia ao novel empregado; pouco tempo se demorou n’ella Souto.”
“Entre muitos amigos, dedicavam-lhe paternal afeição, o velho Maxwel, cidadão norte-americano; e Jeronymo de Freitas Caldas. Sob a proteção d’esses honrados negociantes estabeleceu-se ele em fins de 1834 como corrector de fundos e mercadorias.”
“Contava então 22 anos; estava um homem em todo o vigor da mocidade, de estatura mais que mediana, robusto, sem ser corpulento, grave e alegre, com certa nobreza de compostura, sempre irrepreensivelmente trajado, denunciava- se-lhe a exuberancia de vida, a ardencia do sangue, a tenacidade de caracter na atividade febril, na rapidez dos movimentos, no fulgor de olhar agudo e profundo, na segura serenidade com que tomava as mais graves decisões.
Possuindo pouca instrucção, era fino e agradavel conversador; sabia-lhe a palavra prompta, a frase fluente, sem a menor affectação, d’uma singeleza inimitavel, observação de rara justeza e rapida, intermeando a conversação de ditos espirituosos, sem nunca servir-se de graçolas, agradava a sua presença em toda a parte.
Não fazia phrases de efeito, era sobrio de gestos, não declamava, e era eloquentíssimo.
Havia na sua voz vibrante e sonora, doce e musical, uma força de persuasão irresistível, e persuadia dobradamente por andar-lhe o coração constantemente à flor dos labios; nunca se serviu da palavra para ocultar o que sentia e pensava. Com taes dotes tornou-se bem aceito às damas e estimado dos homens.”
Veio a se casar com a Srª D. Maria Jacintha de Freitas, sobrinha de seu particular amigo e protetor Jeronymo de Freitas Caldas, “corria o anno de 1835”, tendo sido padrinho, seu não menos decidido protetor, o americano Maxwel.
“Por esse tempo, dous ou três anos depois de estabelecido Souto, chegou ao Rio de Janeiro, fortemente recomendado a Maxwel, Dovey, vindo de Londres. Era Dovey homem experimentado no commercio: na Inglaterra havia sido empregado da antiga casa Wanzeller.
Maxwel, com o espírito pratico de verdadeiro americano, que era, compreendendo imediatamente quanto devia ser útil a juncção d’aquellas duas forças e aptidões differentes, do impetuoso temperamento meridional e da friesa anglo-saxonia, da audacia e da moderação, do ardimento empreendedor e da calma reflexiva, de Souto e de Dovey, resolveu fazer a sociedade anglo-lusa.

Communicado o seu projecto aos interessados, que já se tinham encontrado e instinctivamente se estimavam, pelo que justamente valiam, foi por eles aceito com reconhecimento; e formou-se a sociedade Souto & Dovey, para o mesmo negocio, corretagens de fundos e mercadorias.
A entrada, dentro em pouco tempo, de um novo sócio, Benjamim, também inglês, obrigou a sociedade a mudar a firma para a de Souto, Dovey & Benjamim. Dovey, além do seu gênio positivo e energico, ordeiro e disciplinador, havia aprendido na grande metropole do commercio do mundo, a apreciar a vantagem das largas e variadas operações, de modo a fazer com o mesmo capital repetidos negocios, não immobilisando irreflectidamente em transacções de morosa realização, de que pouco se cuidava, ainda no Brazil, onde o capital ficava improductivo longo tempo, por falta de emprego momentâneo e remunerador, pois não havia bancos que dessem e recebessem dinheiro em conta corrente de juros.”
“Os negociantes inglezes monopolisaram por aquelle tempo, quasi exclusivamente, o commercio de exportação do Rio de Janeiro; e com a entrada de Dovey para a firma, todos eles se tornaram compradores de Souto, Dovey e Benjamim.
Ahi principiou deveras e merecidamente a firmar-se a grande reputação de Antonio José Alves Souto. Em pouco tempo, inglezes, brasileiros, francezes, portuguezes e allemães, tratavam dos seus negocios com qualquer dos outros sócios, mas acabavam geralmente pelos decidirem com ele, tão sympathicase tornava a todos a sua pessoa. A sua atividade fez prodigios. Nos trapiches de deposito, nos armazens de café, em casa dos freguezes, na praça, no escriptorio, alternadamente, via-se ele por toda a parte; e no entanto, quando era preciso, sabia-se onde encontral-o, porque o itinerario das suas escursões, o programa dos seus trabalhos diarios ficava no escriptorio. Andava elle, pois, ao corrente de tudo e tudo via quanto era concernente ao seu negocio, estando sempre prompto a informar o comprador das mais minuciosas particularidades, fosse o que fosse de que se tratasse.
Boa parte da produção do Brazil era n’esse tempo vendida no Rio de Janeiro, pois não só eram limitadissimas as transacções directas entre a Europa e os portos do sul do Rio de Janeiro, nem a Bahia e Pernambuco negociavam com as republicas do Rio da Prata, senão por intermedio da capital do imperio. O fumo e o café, o assucar e a aguardente, tudo ali se vendia e boa parte por intervenção de Souto, Dovey & Benjamim.
Subiram imediatamente a milhares de contos de réis a somma das vendas da casa; a percentagem, sendo pequena, e dividida por tres sócios, só ao fim de largos anos, daria a cada um d’elles regular  fortuna; por isso, estando na infancia a industria bancaria, resolveu Souto empregar o capital da casa em desconto de titulos mercantis e em seguida receber dinheiro em deposito por contas correntes de premio,  de que passava ‘cheques’, à ordem dos depositantes ou ao portador, o que constituía uma novidade na vida commercial do Rio de Janeiro.
O menino desprotegido, estava banqueiro !
O credito da casa foi crescendo e as suas transacções alargando-se. A importância dos depositos augmentava constantemente. O publico foi-se familiarisando com o negocio da casa bancaria. Sommas enormes, em relação a época, as sobras dos negociantes procuravam n’ella emprego retributivo.
Timido a principio, foi-se o dinheiro afoutando, caminhando para a casa bancaria, que, a seu turno, afim de aproveital-o, abria mais vasta esphera ao seu movimento, facilitando todos os negocios, que ali mesmo, acto continuo, se entabelaram e terminaram. Por exemplo, cumprindo ordens de negociante exportador, comprava um carregamento de café, pagava-o, e tendo antecipada e, condicionalmente, vendido a cambio, entregava ou creditava o saldo ao exportador.
Em curto espaço, sem ruído, sem ostentação, sem artimanhas, natural e honestamente, tornou-se a casa dos honrados banqueiros o centro de que irradiava o mais variado impulso mercantil do Rio de Janeiro.
Por volta de 1850 ou 1851, (abandona-me a memoria, não posso precisar a data) porque o sol abrasador dos tropicos lhes crestava a fina epiderme britannica, porventura a satisfação de sua modesta ambição com a fortuna conseguida, saudades da velha Inglaterra, ou porque as brumas nataes eram precisas ao seu
temperamento, retiraram-se Dovey e Benjamim, desprendendo-se a custo dos braços de Souto.
Rico, elle, que da classe popular se erguera a tão elevada e invejavel posição, porque não cerrou ali a sua vida comercial ?
Impellia-o a ambição ?
A ambição ! se elle foi sempre modestíssimo como a sua origem !
Era fatal.
Ha homens assim; a sua missão é trabalhar, trabalhar, trabalhar sempre e morrer trabalhando! Antonio José Alves Souto, era um d’esses homens.
Para organições taes a inactividade é a morte.

Só, com o mesmo negocio, que largamente satisfizera as necessidades de tres, é intuitivo, que reduzir as operações da casa, por algum tempo ao menos, parecia acto de simples prudencia.
Foi o contrario que sucedeu !
A sua inquebrantável actividade tornou-se vertiginosa.
Vae fulgir com maior brilho a sua estrela.
O colosso comercial vae chegar ao Austerlitz da sua grandeza ! Ainda mal, que, como ao corso, com maior intervalo embora, lhe presenciaremos o Waterloo.

A demorada convivencia de Souto, a affectuosa intimidade, com os sócios inglezes, tinha de certa forma, modificado o seu caracter, infelizmente, na apparencia somente. A sua compostura tornou-se mais grave; a casaca preta, calças e colete da mesma cor ou brancos, era o traje de que constantemente usava. A physionomia, sempre iluminada por suave sorriso, adquiriu esse ar de bonhemia peculiar do negociante inglez; a voz retrahindo-a, sempre doce e harmoniosa, e mais agradavel pela sonoridade que assim adquiria, soava unicamente quanto era preciso para ser ouvida da pessoa a quem as dirigia, não procurando, ainda nas occasiões de mais viva discussão,  attrahir com o olhar os aplausos do auditorio.
Conseguira mostrar-se calmo; mas, não ser frio.
O rosto era sereno; o vulcão rugia lá dentro.
A palavra, porém, retractava fielmente o pensamento.
Dissolvida a sociedade, Souto, Dovey & Benjamim, participou aos fregueses continuar ele com o negocio; nem um só se retirou.
Ao contrario, os mesmos particulares, pequenos industriaes e trabalhadores principiaram a levar as suas economias à casa bancaria de Antonio José Alves Souto.
Em breve espaço, a affluencia de dinheiro a correr-lhe em deposito para os cofres, qual grossa torrente a despenhar-se vertiginosamente por alcantilado e aportado desfiladeiro, era immensa, enorme !
A face econômica da capital do império estava mudada.
Já ninguém queria dinheiro em casa.
– Dinheiro em casa … loucura ! …
– Mais seguro está elle com o Souto à minha ordem, vencendo juros.
– Tu não levas o dinheiro ao Souto ?
Eis ahi o que por todas as ruas se ouvia.

Era uma verdadeira romaria, de todas as classes e nações, sobraçando massos de notas do Banco do Brasil ou do tesouro, que, em testemunho de homenagem, levavam ao deus do ouro, para as fazer medrar.
Houve dias, sem crise nem corrida, em que era mister voltar duas e três vezes ao escriptorio, para conseguir acesso junto ao mostrador !
E se fosse só isso ! …
Em repartições anexas, faziam-se descontos de letras e contas assignadas, operações de cambio, vendas de apolices, acções de bancos, carregamentos de café, assucar e cannas.
Era magnífico, deslumbrante !
Que credito tinha aquelle homem !
Todas essas variadíssimas operações faziam-se com uma rapidez incrível.
O pessoal era o strictamente necessário mas, hábil, excelentemente adestrado, e animado do desejo de agradar, em razão da boa retribuição que recebia; e a honra de ser empregado do Souto levava-o a praticar prodígios de actividade, sem a menor confusão, de modo que, ao proceder-se de tarde à conferencia, raramente apparecia alguma duvida. E note-se que essa confiança sem limites, essa corrente de dinheiro para sua casa, já lhe estava sendo fortemente disputada.
O movimento comercial do Rio de Janeiro tinha-se desenvolvido espantosamente; e para satisfazer-lhe as necessidades, e – um pouco – estimulados pelo prestigio do banqueiro portuguez, – não digo levados da inveja da sua prosperidade, – havia já diversos bancos e alguns banqueiros, ou antes, ainda cambistas, mas que solicitavam descontos e foram mais tarde verdadeiras casas de banco.
De um extremo devia passar-se a outro; de nada a tudo. A reação foi violenta.
Veja a febre bancaria e industrial.
Todas as manhãs, ao abrir os jornaes do dia, havia certesa de encontrar o prospecto d’um novo banco !
Há poucos anos, tratando-se no senado da creação de um banco para auxiliar a lavoura, dizia um dos maiores talentos e estadistas brazileiros, Zacarias de Goes e Vasconcellos, que esse banco deveria ser inglez, porque no Brazil não havia um homem habilitado para o dirigir !
Esta proposição, severa e injusta actualmente, seria então verdadeira.
E, forte cegueira, todo o mundo queria crear bancos !
E não eram só bancos como companhias, para tudo … e outras cousas mais.
Eu presenciei esse espetáculo tremendo.

Não era febre, era delírio !
Por muito disparatada que fosse a ideia creadora do banco ou companhia, achava admiradores; as acções eram subscriptas; e, sem approvação de estatutos, o direito a recebel-as era transferido de manhã com 10% de lucro, à tarde com 100 e no dia seguinte com 200% !
A loucura foi geral !
A população inteira do Rio de Janeiro entregou-se à agiotagem !
Um medico, meu amigo, lamentou-se-me desesperado por ter vendido, de manhã, 100 acções com 60% de premio, que já valiam, horas depois, 70%.
O descalabro não se fez esperar !
Souto sahiu incólume da emergencia.
Com raro bom senso previu o resultado, conheceu o perigo, e evitou-o.
Ainda não havia manchas n’aquelle sol; o seu brilho tornou-se maior, rutilou com mais força.
O primeiro eclipse, vinha ainda longe; os seus raios beneficos tinham de fazer dasabrochar muitas fortunas, antes de principiarem a obscureccer-se.
A habilidade e prudencia que desenvolveu n’essa occasião, pois enormes foram as somas sahidas de sua casa, a principio, destinadas à compra de acções, causou geral admiração.
Desde então, foi Souto considerado uma notabilidade, uma potencia indispensavel para tudo.
Deputados, titulares, senadores, capitalistas, diretores de bancos e ministros de estado, encontravam-se frequentemente no seu gabinete commercial: todos ambicionavam a honra da sua intimidade.
Aos domingos, centenas de pessoas, da mais elevada como da mais baixa classe, iam passear à sua chacara.
Todos ali se sentiam à vontade.
É que ele a todos agradava com a sua lhaneza. Ao operário que ia ver os bichos, (leões, pantheras, ursos, etc.) como o povo os chamava, ou ao mais alto personagem, recebia sempre com o seu amavel sorriso.
Ao ocioso dizia-se; vao ver a chácara do Souto.
A quem tinha uma pretensão: arranja um empenho para o Souto.
Ao negociante em apuros: falla com o Souto.
Tocou o apogeu a sua grandesa.

Da eminente posição a que chegára não havia caminhar além: attingira ao Zenith!
E não sentiu deslumbramentos, não o inebriou a opulencia, não se atirou no turbilhão das festas, não humilhou ninguém com o seu fausto. Quem o vira então, simples e natural, na desvanecedora situação em que se achára, havia de presumil-o saído de dourado berço, poderosa e nobre estirpe !
A grandeza parecida feita para elle e elle para ella.
Todos se ocupavam da sua omnipotência; só ele parecia ignorar o que podia.
Honrado com a confiança do Imperador, recebia-o em sua casa e toda a família imperial, com a maior singeleza, sem o espalhafato ridículo dos preparativos burguezes em taes occasiões.
Ainda com a mão esquecida ao contato da dextra imperial aportava cordialmente a do operário honrado.
Longe de envergonhar-se da sua origem como tantos outros, que d’ella apagam a importuna lembrança com o brilho das comendas compradas, o visconde de Souto orgulava-se em rememoral-a: e, filho extremoso e irmão dedicado, attestava-a, chamando a todos para a sua companhia.
O irmão tomou parte nos seus trabalhos commerciaes, e em seguida estabeleceu-se; as irmãs casou-as com homens distinctos; a velha mãe teve sempre o logar de honra em sua casa, e morreu-lhe nos braços.”
… “Por esse tempo quebrou o banqueiro Ferreira, o seu primeiro patrão. O triste velho, que tão festejado fora, viu-se reduzido à última extremidade, de todos desamparado, ninguém lhe perdoava o excessivo amor dedicado a um filho, que para a perda da fortuna e honra do seu nome contribuiu.
Soube Souto o apertado transe em que se achava o desgraçado Ferreira. Não lhe soffreu o animo generoso esperar um momento; correu a procural-o e encontrou-o.
– Meu patrão, sei que precisa d’um amigo; e eis-me aqui.
– Obrigado! Eu ia morrer; não sei como; mas breve; respondeu chorando, o alquebrado ancião.
– Vamos para casa; tenho lá uma numerosa família que o respeita e há de consolal-o.
E levou-o consigo.
À sua mesa ninguém se sentava antes do velho Ferreira chegar; os filhos e filhas beijavam-lhe a mão como ao pae; e as mais pessoas cumprimentavam-n’o como a um superior respeitado e amado.
Ali, o hospede era senhor.

O visconde de Souto, impressionava a quantos d’ele se aproximavam e impressionava-se facilmente.”
… “… não dava bailes e festas sumptuosas, que nunca os dera, raramente appareceia nas casas de espectaculo, sendo-lhe encanto único passear por entre as umbrosas arvores da chacara e refugiar-se, parte da estação calmosa, nas solidões da Cascatinha, propriedade sita na pittoresca e amena Tijuca, lendo, conversando com algum amigo ou observando os trabalhos de reparação e cultivo que se faziam; comprazia-se, porém, em contribuir para melhoramentos do município da corte, subscripções de toda a qualidade, liberdade de escravos, erecção de monumentos, fundação de instituições de caridade, protecção a famílias desamparadas, quer se tratasse de Portugal ou do Brazil, de portuguezes ou brazileiros.
Elle amava Portugal como a terra do seu nascimento; o Brazil, aquella terra formosa, hospitaleira, como a patria de adopção; e brazileiros e portuguezes confundia-os no seu immenso amor ! N’aquelle peito não havia lugar para mesquinhas rivalidades.
O visconde de Souto era cosmopolita quando se tratava de caridade.
Quantas vezes seu irmão e filhos, occultamente, em carta fechada, levaram em avultadas quantias, o pão ao faminto, a coberta ao nú e o consolo a todos ! Que benéfica acção foi a d’aquelle homem ! Que grande e generoso coração era o seu !
Esse sentimento sublime de caridade contribuiu poderosamente para a extraordinaria popularidade e veneração de que gosou.
Dignatario da Ordem da Rosa, pelo Brazil, visconde de Souto por Portugal, estava pelo casamento dos filhos aparentado com as famílias do barão de
Piracinunga, conde de Ipanema, marquez de Olinda e o notavel estadista, tantas vezes ministro de estado, Euzebio de Queiroz, casas das mais illustres do Brazil.”
“A catástrofe tremenda avizinha-se.
O anno de 1864 ficará para sempre tristemente memoravel nos annaes do Brazil e principalmente da sua capital.”
“Ninguem supunha então, é certo, que aquella guerra, celebre por tanto feito valoroso, praticado em combates navaes e batalhas campaes, duraria 5 anos, custaria quinhentos mil contos e cem mil homens; mas, o receio do desconhecido accomettia todos; e o capital, sempre tímido ao aproximar do perigo, retrahia-se violentamente.”
“Assim amedrontados os espíritos, o credito, em geral, foi-se restringindo; e os depositos escoando-se rapidamente da casa do visconde de Souto. Por vezes, já os seus cofres, ao terminar o expediente, tinham-se fechado exaustos, sobre si mesmo.”

“Os depósitos confiados à sua casa achavam-se extremamente reduzidos e, por isso mesmo, a sua carteira vasia. A sua responsabilidade no Banco do Brasil subia a cerca de 30 mil contos, quando chegou o nefasto 10 de setembro de 1864!
N’esse dia os seu pagamentos montavam a cerca de 1:000 contos; e nem a entrada de depositos os supria nem havia títulos em carteira para redescontar!
Importantíssimas eram as suas propriedades; o seu capital elevava-se ainda a três mil e tantos contos; mas um banqueiro d’aquelles não hypotheca casas e os seus devedores não lhe acudiam.
Esta situação foi debatida fria e silenciosamente no seu escriptorio com a diretoria do Banco do Brasil; e o resultado da conferencia foi o banqueiro suspender pagamentos.
Na tarde d’esse dia, espalhou-se o lúgubre acontecimento.
Os mesmos que suspeitavam a verdade, que anteviram aquelle desfecho, pasmaram de o vêr realizado !
O Souto suspender pagamentos ! … era a geral e plangente exclamação.
No dia seguinte, logo de manhã, a rua Direita e outras próximas estavam intransitaveis, tal era a multidão que as enchia.
Às 10 horas, manifestou-se a corrida às casas bancarias e aos bancos.
Decretavam-se medidas, extraordinarias: deu-se curso forçado às notas do Banco do Brazil, suspenderam-se os vencimentos commerciaes.
Era tarde !
Todas as casas bancarias, qual magestoso edifício, que na sua queda tremenda esmaga as humildes construcções, erguidas na sua vizinhança, foram feridas de morte no baque do colosso, cuja grandeza cubiçavam !
Umas fecharam logo as portas, outras luctaram, fizeram imensos sacrifícios e liquidaram desastrosamente em seguida !
A população do Rio de Janeiro, excepção feita d’um ou outro imprudente irreflectido, ignorante e sem coração, deu excelente testemunho do seu valor moral: nenhum attentado, nenhuma provocação, cordura admirável !
O que sofreu então o visconde de Souto, não se descreve; e não era por si, mas pelos seus credores que sofria.
Não se desfez em vãs lamentações, não se queixou de ninguém.
Aos seus olhos só havia um culpado: elle !
A sua atitude nobre e resignada impoz respeitosa dôr.

A mim, nunca elle me pareceu tamanho, como na desventura.
Dos milhares de contos de réis, que diariamente lhe passaram pelas mãos, tinha em casa, na hora do desastre, algumas dezenas de mil réis ! Abyssinios há-os em toda a parte; mas, ao descambar, aquelle grande homem, (honra lhes seja !) achou verdadeiros amigos a seu lado. Reuniram-se, juntaram cento e tantos contos de réis; e compraram para lhe offerecer, a propriedade em que residia, e as joias, na maior parte relíquias sagradas de família. O próprio imperador mandou sympathicamente manifestar-lhe o pesar que o seu imerecido infortunio lhe causava.  É que d’aquelle immenso desastre, sahiram immaculados o brio, a dignidade e a honra.
Escudado n’essas qualidades, voltou a trabalhar em corretagens, e ninguem inspirava mais confiança do que elle; o seu escriptorio estava sempre cheio.”
“Estas nobilíssimas acções não ficavam sem recompensa: elle amava o trabalho, precisava do trabalho para manter a família e exercer a sua atividade, e trabalho productivo não faltava no seu escriptorio.
Sem a lembrança dos prejudicados de 1864, o visconde de Souto teria percorrido quasi feliz os ultimos annos da vida. Não as tendo creado, não sofria necessidades. Era geralmente estimado; tinha uma família exemplaríssima, que o venerava; e os incommodos physicos não o atormentavam.
Se elle podesse esquecer ! …
O sorriso continuava a enflorar-lhe os lábios, mas era um sorriso tristemente melancholico.
Atravez d’aquella serenidade, via-se a dor que o pungia.
Desde 1864 tornou-se sujeito a longas horas de completa abstração.
A esposa e a mãe, não o vendo apparecer, seguiam pé ante-pé ao seu gabinete, e iam encontral-o recostado à secretária, com a cabeça apoiada na mão, murmurando: meus pobres credores! … Outras vezes porque a meditação era mais profunda, a immobilidade mais completa, a concentração do espirito mais forte, as senhoras assustavam-se e diziam, chamando-o com essa entonação amorosa, dorida e meiga, que só as esposas e as mães conhecem: Antônio! …
E o visconde de Souto erguia-se como quem disperta, beijava-as, desprendia-se- lhe dos braços e ia sob as arvores do parque, obscurecido pela sombra e o avizinhar da noite, procurar refrigério à febre que o abrasava.
Resumindo:
O visconde de Souto foi um grande homem.
Teve por divisa: honra e trabalho. Accommettido de um ataque apoplético no seu escriptorio commercial, só deixou o campo da honrosa lide para ir morrer.
O seu glorioso objetivo foi a caridade.

Errou ?
Era homem.
A causa dos seus erros ?
A sua bondosa e extrema sensibilidade, a sua grandeza de alma e a generosidade do seu coração.”

Lisboa, 21 de fevereiro de 1880
José de Bessa e Menezes